Demissão: o que você pode aprender com ela

A DOR DE SER DEMITIDO

A demissão é sempre uma questão complicada, tanto para quem demite quanto para aqueles que são demitidos. Não conheço ninguém que tenha feito isso sorrindo ou imaginando que está fazendo um grande negócio para a empresa.

Depois de trinta anos bem vividos no mundo profissional, posso dizer que conheço um pouco dos meandros que permeiam o ambiente corporativo. Trabalhei em pequenas, médias e grandes corporações, tanto no papel de empregado quanto no papel de consultor.

Durante a minha inesquecível jornada como empregado, principalmente nas décadas de 1980 e 1990, eu ficava chocado com a enxurrada de demissões que ocorriam n as empresas por onde passava. Na década de 1990, conhecida também como a década perdida, o termo mais utilizado era o downsizing. Em torno de 400 milhões de pessoas perderam o emprego.

Independentemente das razões apresentadas, aquilo sempre me deixava triste, pois sabia que, em muitos casos, o senso de justiça nem sempre prevalecia e muitas demissões eram injustas e dolorosas.

Por outro lado, algumas eram cômicas e a maioria tinha pouco a ver com a origem do problema. O fato é que as demissões eram inevitáveis e aos poucos eu fui aprendendo a conviver com elas e extraindo lições que ainda hoje se mostram muito úteis na profissão de consultor, coach e palestrante.

Nesse período, conheci seres inescrupulosos, de sangue frio, cujo maior deleite era demitir sorrindo, e outros que se diziam incapazes de demitir sem antes passar por um período de tensão. Demitir alguém é uma das coisas quem ninguém quer fazer.

Conheci outros que nunca tiveram coragem de demitir alguém e muitos que ainda preferiam transferir o problema para a turma do RH a fim de evitar o confronto com o profissional para o qual ele nunca foi capaz de prestar feedback, por medo, insegurança ou falta de liderança mesmo.

demissao

O LADO BOM DA DEMISSÃO

Demitir alguém e absorver a demissão é um processo delicado que exige equilíbrio e maturidade, tanto para quem demite quanto para quem é demitido. E, geralmente, essas virtudes nunca estão presentes quando mais se precisa delas.

Em geral, algumas demissões são verdadeiros desastres que acabam por destruir a autoestima das pessoas em vez de projetá-las para um futuro melhor, apesar de todas as recomendações dos especialistas para amenizar o problema.

No início de 2000 eu vivi o período mais difícil da minha vida profissional quando, por determinação da matriz, recebi a triste notícia de que a área que eu coordenava seria transferida para outro estado.

Contudo, graças ao talento natural e à incrível capacidade de adaptação do ser humano, todos os demitidos sobreviveram e estão bem até hoje trabalhando em outras empresas, bem empregados e até mesmo como empreendedores.

Em menos de três meses, eu me vi obrigado a demitir toda a equipe, a qual eu havia dado um duro danado para consolidar. Éramos praticamente uma “família” de vinte e uma pessoas – conceito equivocado e mais tarde reformulado – que se desmantelou da noite para o dia, onde eu, o paizão, pouco pude fazer pelos meus filhos demitidos pela “mamãe”.

Não existe esse negócio de empresa-mãe. Cada vez que alguém arrisca proferir algo parecido na minha presença, eu questiono. Caso a pessoa não saiba, vai saber a diferença entre empresa e sua verdadeira mãe no dia do desligamento quando perder o crachá, o plano de saúde, o auxílio-combustível, o vale-refeição e aquela bendita cadeira onde se acomodou durante alguns anos.

Não é necessário tripudiar as pessoas tampouco mentir ou iludir. Ser simples, direto e justo é a melhor coisa a ser feita embora dependa muito de como foi o relacionamento entre chefe e empregado ao longo do tempo.

A relação entre empresa e empregado, ou empregado e patrão, é uma relação profissional regida por contrato, com direitos e obrigações bem definidas para ambas as partes.

Quando isso fica claro desde o início e você é cobrado por objetivos e metas factíveis, previamente negociados e bem monitorados, a demissão se torna mais justa no dia em que se torna inevitável.

Com o tempo eu aprendi que toda demissão tem o seu lado estimulante e doce. Se você tiver consciência do que é capaz e acreditar piamente na volta por cima, infinitas possibilidades se abrem.

Muitos profissionais confundem a relação e se entregam fervorosamente a uma convivência que eles insistem em chamar de família. Quando o laço familiar se rompe, a pessoa fica perdida e não sabe se vai para casa ou para o bar da esquina mais próximo.

Eu chorei um rio de lágrimas e voltei para casa o mais rápido possível quando fui demitido pela primeira e última vez. Graças a Deus, eu fui muito bem recebido e ainda ganhei o melhor dos presentes, carinho e abraços, uma das razões pela qual sou fã da minha família.

Se algum dia você vivenciar algo parecido, quer na posição de demitido, quer na posição de cumpridor dessa difícil tarefa, lembre-se das minhas palavras de ânimo e consideração, afinal, eu já passei por isso.

Por experiência própria, digo que você vai sobreviver tranquilamente e ainda sair fortalecido para o próximo desafio. Pense nos amigos e conhecidos que passaram por situação semelhante e avalie o quanto eles evoluíram em todos os sentidos. A vida voltará ao normal muito antes do que você imagina.

O QUE VOCÊ PODE APRENDER AO SER DEMITIDO

Por tudo isso, quero compartilhar aqui algumas lições que me foram muito e espero que sejam úteis se algum dia você precisar delas ou quando tiver que socorrer um amigo. Esteja onde estiver, tenha sempre em mente que a concorrência está cada vez mais acirrada, portanto, adversidades dessa natureza fazem parte da vida para o seu próprio desenvolvimento pessoal e profissional.

  • Nunca se lamente: lamentar e falar mal da empresa serve apenas para provocar insegurança nas pessoas que você ama e distanciamento das pessoas que admiram o seu trabalho; o que você menos precisa nesse momento é de ódio, raiva, pensamentos e atitudes negativas.
  • O mais importante é manter a lucidez e o equilíbrio: pare de se demitir mentalmente e sofrer por antecipação; se a demissão for inevitável, considere-a como uma nova oportunidade de apresentar seu talento e energia para quem realmente precisa deles, seja como patrão, seja como empregado.
  • Otimismo e sorriso nos lábios: pense que sempre haverá espaço para pessoas que demonstram otimismo diante das adversidades, para quem cultiva o sorriso nos lábios e, principalmente, para quem sabe dizer “bom-dia”, “por favor” e “obrigado”. Mantenha a cabeça erguida.
  • Faça bom uso do seu networking: seja humilde e ousado ao mesmo tempo, mantenha contato com os amigos e conhecidos e não tenha vergonha de pedir, afinal, pedir não ofende; não mande o currículo para o RH, mande o currículo para um amigo que conhece alguém do RH; utilize a sua rede de contatos, agende uma visita, vá entregar pessoalmente e pare de gastar com xerox e papel.
  • Até um pé no traseiro te empurra para frente: segundo Jack Welch, o homem que revitalizou a GE, “até um pé no traseiro te empurra para frente”, portanto, concentre-se no futuro e não no passado. O que você consegue aprender com tudo isso?
  • Mantenha o foco, a força e a fé: sem isso, não há currículo nem padrinho que dê jeito. Não perca o foco, pois como dizia a avó de um amigo meu, “é no andar da carruagem que as abóboras se ajeitam”. Se você não acredita em si mesmo, por que alguém haveria de acreditar
  • Empreendedorismo na veia: como você pode resgatar aquela ideia adormecida há anos e transformá-la em uma nova fonte de receita? Existem muitas coisas que podem realizadas a partir do seu conhecimento, da sua história e da sua maneira de resolver problemas.

Penso que todos nascem para cumprir uma missão, seja ela qual for, portanto, é melhor que seja num lugar onde tenhamos o mínimo de dignidade e respeito. Pare de ser demitido, demita-se antes, não apenas da empresa, mas das coisas que você não tem a mínima vocação para desempenhar.

Segundo Albert Camus, pensador e filósofo francês, não existe dignidade no trabalho quando nosso trabalho não é aceito livremente. Pense nisso e seja bem mais feliz!

Quer saber mais? Leia o artigo O que fazer quando a demissão chegar

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