Racismo: um longo caminho pela frente

Seus pais o ensinaram a ser racista?

Em 1992, quando Rodney King foi perseguido e quase morto por policiais na cidade de Los Angeles, Califórnia, cinquenta e três pessoas foram assassinadas durante protestos nos EUA, na sua grande maioria, brancos.

Por conta da revolta, qualquer cidadão branco que cruzasse as equinas da Normandie Ave. e Vermont Street poderia ser interceptado por paus e pedras, retirado brutalmente do veículo e massacrado por cidadãos de cor preta sem o menor critério, para compensar a violência sofrida por King.

Encerrados os protestos, dezoito pessoas haviam sido mortas ou sofreram algum tipo de violência somente naquela esquina, todas de cor branca, da forma mais brutal que se possa imaginar.

Em geral, eram cidadãos comuns, pais e mães de família, inclusive pessoas que trabalhavam em abrigos e instituições para crianças abandonadas, filhos de pais de cor preta.

Quando foi que seus pais o ensinaram a ser violento ou a vingar um crime por meio de outro crime?

As fontes da escravidão e do racismo

O período mais sórdido da escravidão mundial durou em torno de 400 anos, do qual muito se valeram países como Brasil, Estados Unidos, Inglaterra e Portugal, entre outros, além de países do próprio continente africano.

Par confirmar, basta acessar os documentários para se horrorizar com as cenas de barbárie registradas naquele triste episódio. Pouco importava se o cidadão era culpado ou inocente, racista ou não, solteiro ou pai de família, homem ou mulher, desde que fosse branco.

Estima-se que mais de um milhão e meio de escravos tenham sido atirados ao mar durante a travessia dos oceanos logo que os doentes eram detectados dentro dos navios negreiros, para não contaminar os demais. Você faz ideia da imensidão desse número?

Uma das maiores fontes de riqueza dos senhores feudais africanos e líderes tribais da época vinha do tráfico da sua própria gente. O trabalho escravo nas minas de diamante também era outra fonte poderosa de riqueza.

Boa parte dos escravos alforriados no Brasil e nos EUA se dispunha a retornar para a África ou servia de apoio para o tráfico de novos escravos uma vez que esse tipo de comércio era muito rentável e enriquecia muita gente na época.

Portanto, essa não é uma discussão sobre pretos e brancos, ricos e pobres, primeiro, segundo ou terceiro mundo. Essa é uma discussão sobre seres humanos subjugando seres humanos.

O que alimenta o racismo?

A separação de cores, a divisão de classes, a “supremacia” branca e outras bobagens eu deixo por conta dos políticos inescrupulosos e parte da mídia mais interessada em dividir do que agregar.

Faz parte também da desinformação e da falta de conhecimento histórico da maioria dos cidadãos que apoiam qualquer iniciativa capaz de promover polarização, preconceito, violência e segregação.

Quando meu pai tinha oito anos de idade, minha avó paterna entregou os filhos para amigos, parentes e conhecidos que se dispuseram a cuidar deles uma vez que ela não tinha como cuidar de todos. Eram oito no total.

Meu pai foi entregue a um casal de cor preta, o qual cuidava de uma fazenda em Ponta Grossa, interior do Paraná. Durante os dois anos em que permaneceu sob “cuidados” do casal ele foi “escravizado” da mesma forma.

Nesse período, ele levantava às 4 da manhã para lavar quilos de roupas todos os dias, saia cedo de casa para vender salgados que a patroa fazia. Na volta, apanhava bastante quando não vendia tudo o que havia levado ou quando a prestação de contas não fechava.

Durante um bom tempo ele alimentou um ódio mortal de pessoas de cor preta até o dia em que foi convidado para ser padrinho de casamento de um auxiliar de cor preta, na oficina da empresa em que trabalhava. 

A partir daí ele começou a entender que não se trata de cor, mas se trata de pessoas, seres humanos maltratando seres humanos. Pessoas de má índole, preconceituosas e de natureza violenta existem em todas as cores, culturas, credos e religiões.

Apesar de tudo, ele nunca nos ensinou a alimentar qualquer tipo de preconceito ou de ódio contra pessoas de cor preta e eu sabia o quanto ele sofria por tudo o que passou naquele triste período da sua vida.

Racismo: um longo caminho pela frente

O racismo tem dois lados: brancos e pretos, judeus e palestinos, orientais e ocidentais, ricos e pobres e assim por diante. É da natureza competitiva, impulsiva, prejulgadora e preconceituosa do ser humano, infelizmente.

Ao assistir o Jornal da CNN dia desses, eu me pus a refletir quando William Waack acusou o presidente Trump de estimular o racismo, então, lembrei-me de que o próprio Waack foi praticamente demitido da Globo por fazer chacota com a cor de um assistente de câmera quando era repórter no exterior.

O racismo estava presente nas palavras do Boris Casoy, em dezembro de 2010, quando este fez chacota ao vivo com dois garis do Rio que apareceram no jornal saudando o ano novo. Ambos eram gente simples que haviam sido filmada pela própria emissora para participar do programa.

O racismo está presente na entonação das palavras de jornalistas que criticam manifestações de cidadãos de bem indignados que cultivam valores como família, religião e símbolos nacionais.

Essa questão de pretos e brancos é bem mais antiga, mais profunda e mais complexa do que simplesmente ir às ruas, exigir justiça, depredar o patrimônio público e se matar uns aos outros.

Temos ainda um longo caminho pela frente e é bem provável que minha geração não viva para ver essa questão resolvida ou para lermos apenas nos livros de história.

Portanto, é dever de todo cidadão com um mínimo de sangue nas veias, lutar até o fim para eliminar essa praga chamada racismo do vocabulário, por meio de atos, exemplos e palavras, nunca de omissão.

Dicas de Leitura

BRASIL: UMA HISTÓRIA | Eduardo Bueno | Editora Leya

CASA GRANDE E SENZALA | Gilberto Freire | Global Editora

ESCRAVIDÃO | Laurentino Gomes | Globo Livros

NAUFRAGOS, TRAFICANTES E DEGREDADOS | Eduardo Bueno | Editora Estação Brasil 

O SOL É PARA TODOS | Harper Lee | Editora José Olympio

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