A importância e a magia do crachá

A importância do crachá

Em cinco dias por semana, quatro semanas por mês ou onze meses por ano, no mínimo, milhares de profissionais seguem para o trabalho munidos do seu maravilhoso e abençoado crachá.

Um profissional que se preze pode perder o ônibus, o café da manhã, a carteira de documentos, o horário de trabalho, mas nunca deve ser tão avoado a ponto de perder o crachá.

Quando isso ocorre a regra é dura, sobra cara feia, advertência e em muitas empresas o sujeito não consegue nem se dirigir ao local de trabalho para se justificar. O crachá abre portas, mas não abre corações e mentes.

Existe sempre alguém na área que jamais esquece o crachá e faz questão de dedurar o sujeito antes mesmo de ele se apresentar ao chefe, apenas para provocar o constrangimento e rir um pouco da desgraça alheia.

Faz mais de quarenta anos que eu consegui o meu primeiro crachá e o  primeiro a gente nunca esquece. Na época eu tinha mais cabelo, mais energia, mais vontade de usá-lo e o salário mínimo era suficiente para pagar as contas.

Com o tempo eu fiquei mais independente, mais maduro e aos poucos fui aprendendo a separar a vida pessoal da vida profissional. Entretanto, o crachá nos persegue ainda que sejamos cidadãos comuns, empregados, desempregados ou empresários uma vez que poucos lugares permitem acesso sem o crachá.

Por essas e outras razões, o crachá continua sendo muito solicitado e se transformou num dos mais importante instrumentos de identidade na maioria das organizações, quer você goste ou não.

A importância e a magia do crachá

A simbologia do crachá

O crachá é um dos mais poderosos instrumentos de inclusão social criados pela sociedade moderna. Para muitas pessoas é sinônimo de dignidade, de esperança e status, principalmente em pequenas cidades do interior onde a fonte de sobrevivência da maioria depende da existência de poucas empresas.

De acordo com a professora Maria Schirato, autora do livro O Feitiço das Organizações, o crachá é a superposição da identidade e, em alguns casos, a substituição pura e simples da identidade original.

Em geral, o crachá representa poder, segurança, hierarquia, salário, férias, descanso semanal remunerado, benefícios de toda ordem. Sem crachá você não é nada ou, pelo menos, querem que pense assim para que se dedique mais ao trabalho e esqueça o restante.

Ao perder o crachá você perde também o plano de saúde, o auxílio combustível, o vale refeição e o convênio-farmácia e, por vezes, o sobrenome da empresa quando você já nem lembra tanto qual é o seu.

Isso ocorre por conta de todas as vezes que você atende o telefone e repete exaustivamente, com aquele ar de superioridade: Jerônimo da Klabin, da Brahma, da Texaco, da Volvo, da CSN e assim por diante.

Na minha cidade de origem, o crachá substitui facilmente a carteira de identidade. Qualquer estabelecimento do comércio local dispensa o RG, desde que se apresente o crachá da maior e mais conhecida empresa da cidade.

Quando eu me lembro do primeiro crachá, desperta uma ponta de orgulho. Está comigo até hoje, mas não me pergunte o motivo. Talvez seja uma espécie de saudosismo ou de nostalgia, pois continua intacto na minha caixa de lembranças do passado.

O crachá muda a personalidade

A simbiose das pessoas com o crachá é uma coisa mágica e ao mesmo tempo uma relação de amor e ódio. Durante muitas décadas, a cultura do crachá fez do ser humano um ser submisso e, em muitos casos, continua fazendo.

Por um crachá e um pouco de dignidade, muitos dobram o turno de trabalho, sacrificam a saúde, ignoram a família, afastam-se dos amigos, abrem mão dos projetos pessoais e se transformam em algo que não são. Quais as razões para isso?

Existem várias, porém antes quero compartilhar uma história que aconteceu comigo em 2004, depois da minha primeira e última demissão na vida. Ali eu me dei conta de quanto o crachá era importante.

No dia seguinte ao da demissão eu tomei coragem, imprimi em torno de trinta cópias de currículos e comecei a fazer contato com os amigos, clientes e fornecedores para não perde-los de vista e para conseguir uma rápida recolocação no mercado de trabalho.

Eu precisava reconstruir o caminho, então, telefonei para um dos escritórios de advocacia que prestava serviços para a empresa onde eu trabalhava até o dia anterior e com o qual eu mantinha ótimo relacionamento profissional.

Minha intenção era agendar uma visita, conversar com um dos sócios, entregar o currículo e dizer que permanecia vivo, apesar do susto. Adivinhe qual foi a primeira pergunta da secretária ao telefone: Jerônimo de onde?

Na hora eu fiquei desconcertado, afinal, ela falava comigo quase toda semana, mas aguentei firme e, com o orgulho ferido, evitei dizer o nome da empresa. De Curitiba mesmo – respondi. Sim, mas de qual empresa? – ela insistiu.

Meu pai do céu! Pensei rápido e devolvi com presença de espírito: da JM Corporation. Só um instante, por favor – disse a secretária antes de transferir a chamada para o sócio. Pela primeira vez eu não precisei do sobrenome da empresa.

Acredite se quiser, é a mais pura verdade. Eu gostaria de saber quem foi o infeliz que condicionou o fato de que você deve ser de alguma empresa para ser atendido ao telefone, mas isso não muda a realidade do mundo corporativo.

A importância do seu nome e sobrenome

O uso do crachá está diretamente relacionado com a Hierarquia das Necessidades, idealizada por Abraham Maslow, psicólogo nova-iorquino, o qual estudou as necessidades do ser humano em diferentes camadas, de acordo com a evolução ao longo de sua existência.

Infelizmente, menos de um terço da humanidade passa do primeiro estágio, o de ter apenas as necessidades fisiológicas atendidas, entre elas a fome e, portanto, sobrevive em condições precárias. Nossa luta constante é fazer com o maior número de pessoas consiga chegar, no mínimo, ao terceiro estágio: sociais.

De tudo o que aconteceu ficou a seguinte lição: a segurança que o ser humano tanto busca jamais será encontrada nos crachás ou nos cartões de visita. Ambos são apenas símbolos, políticas e procedimentos das empresas, cujo vínculo termina no mesmo dia em que o profissional é encaminhado para o setor de RH a fim de desfazer a sua triste relação contratual.

Na prática, trata-se de um rito de passagem e, ainda que proporcione o mínimo de dignidade para muitos, jamais será capaz de substituir o nome ou o sobrenome de alguém tampouco o papel da carteira de identidade.

Nome e o sobrenome são os bens mais valiosos de uma pessoa, dizia Dale Carnegie, autor do best-seller Como fazer amigos e influenciar pessoas. Você pode estar perdido no meio deserto, mas se alguém gritar o seu nome, o semblante muda, os olhos brilham e, provavelmente, um largo sorriso se abre.

Nome, sobrenome e dignidade são os únicos bens que não lhe podem ser tirados. Valem mais do que um simples crachá, um cartão de visita e qualquer outro bem material que você possa adquirir.

Posso afirmar que se o crachá for a sua única esperança de vida, você jamais a terá. A verdadeira esperança consiste numa reserva de competência, de experiência e de sabedoria.

Por fim, ainda que o crachá seja útil e valioso por determinado período de tempo, ele nunca será capaz de substituir a força do seu nome, o valor da sua dedicação e a singularidade da sua existência.

As palavras de Nietzsche, grande pensador alemão, encerram a lição de hoje: só se pode alcançar um grande êxito quando nos mantemos fiéis a nós mesmos.

Manter-se fiel a si mesmo é não perder a sua dignidade, o seu caráter, a sua identidade, ou seja, as únicas coisas que serão lembradas com frequência depois da sua partida para um mundo mais digno em outro plano.

Pense nisso e seja bem mais feliz!

Quer saber mais? Leia o meu artigo Será o fim do diploma?

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